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Jarina, o marfim vegetal

Por: Maria das Graças Rodrigues Ferreira, Pesquisadora da Embrapa Rondônia

 

A diversidade biológica da região Amazônica é uma fonte permanente de recursos, constituindo-se num imenso potencial para o desenvolvimento sustentável da região, quando comparada a utilização altamente destrutiva das florestas tropicais. O uso inadequado dos recursos, deve-se em parte ao conhecimento incipiente das potencialidades da flora regional e das escassas estratégias econômicas relacionadas a esse uso.
Assegurar a produção sustentável da floresta mediante a aplicação de técnicas de manejo florestal é uma das principais saídas para a conservação da diversidade biológica regional e para o desenvolvimento econômico. Tal prática difere daquelas implementadas no sudoeste asiático e, mais recentemente, no Brasil, cujo principal entrave é o descompromisso social em relação aos moradores da floresta.
As comunidades da floresta estão pagando o preço pelo alto risco financeiro da baixa diversidade de produtos, lamentavelmente em uma região reconhecida pela diversidade da flora, incluindo recursos vegetais úteis. ANDERSON (1989) afirma que uma estratégia de desenvolvimento cujo principal objetivo é o bem estar econômico das populações extrativistas, possui um alicerce precário e instável e uma inviabilidade econômica, se estiver baseado na exploração de um número restrito de produtos potenciais.
Pesquisadores têm demonstrado que a população tradicional detêm um amplo conhecimento sobre os recursos naturais, podendo indicar os usos de espécies vegetais potenciais e ensinar novos modelos para uso e manejo dos mesmos (POSEY, 1992).
A seleção de espécies vegetais para diversificação dos sistemas de produção utilizam critérios sociais, ecológicos e econômicos, sendo atualmente, os parâmetros econômicos mais utilizados. PETERS (1994) afirma que os parâmetros ecológicos são um elemento importante na seleção de qualquer recurso vegetal para exploração e tal fato não deve ser negligenciado. O resgate do conhecimento dos povos tradicionais, como forma de direcionar as atividades de exploração de modo sustentável também deve ser priorizado.
Assim, ao selecionar espécies a partir do conhecimento dos povos tradicionais, aspectos sociais, aliados aos ecológicos e econômicos, devem ser considerados, pois a prática do uso dos recursos naturais, baseada no acúmulo de conhecimentos adquiridos de forma empírica ao longo de suas vidas, leva os extrativistas a terem preferências de exploração por recursos potenciais.
A jarina (Phytelephas macrocarpa R. e Phytelephas microcarpa R & Pav.) é uma palmeira pequena, de tronco grosso com numerosas raízes adventícias e flores de perfume forte. É conhecida também como "marfim vegetal", em português, tagua em espanhol, ivory plant em inglês e Brazilianische steinmüssee em alemão. Ocorre de forma espontânea em diversas regiões tropicais do mundo e no Brasil distribui-se por toda a região amazônica, principalmente no sudoeste do estado do Amazonas e nos vales dos rios Purus, Acre, Antimari, Iaco, Caeté, Maracanã e Gregório, estado do Acre.
A palmeira possui crescimento lento, sendo encontrados indivíduos com mais de 100 anos de idade. As sementes levam 3 a 4 anos para germinar e as plantas de 7 a 25 anos para início da frutificação.
A árvore fêmea produz cerca de 6 a 8 cachos de frutos/ano, pesando cerca de 9 a 12 kg, com 8 a 12 sementes cada fruto. As sementes novas são líquidas, claras e insípidas, semelhante ao côco da Bahia. A semente tem aproximadamente 2,0 cm de diâmetro, pesando 35 gramas em média. O endosperma da jarina é um líquido claro quando a semente é ainda verde e é uma bebida refrescante na floresta. Quando o fruto está amadurecendo, o líquido adquire um aspecto gelatinoso, sendo também comestível, com um sabor semelhante ao do côco em alguns estágios de desenvolvimento.
Os frutos amadurecidos caem e soltam as sementes, permitindo a secagem de 4 semanas a 4 meses, dependendo das condições climáticas. As sementes amadurecidas tornam-se duras, brancas e opacas como o marfim, com a vantagem de não ser quebradiça e fácil de ser trabalhada. A coleta das sementes ocorre em grande quantidade entre os meses de maio e agosto, sendo a regeneração natural aleatória.
A palmeira é utilizada por populações locais na construção civil (cobertura de casas com as folhas), alimentação do homem e animais (polpa não amadurecida) e confecções de cordas (fibras). Contudo, a parte mais usada da planta é a semente, que em substituição ao marfim animal, é empregada na confecção de ornamentos, botões, peças de joalheira, teclas de piano, pequenas estatuetas e vários souvenirs. Transformada em jóias, a jarina está ganhando fama com as lojas de luxo, oferecendo relógios, brincos, braceletes e colares feitos de marfim-vegetal. As sobras da jarina são transformadas em um pó, que é exportado do Equador para os Estados Unidos e Japão, após o corte do material para a produção de botões.
Atualmente, com os riscos de extinção de animais fornecedores de marfim, a jarina apresenta-se como alternativa ao marfim verdadeiro. A crescente demanda por produtos naturais tem despertado interesse em muitas empresas que comercializam produtos das florestas tropicais, especialmente aqueles que podem consolidar o "mercado verde".
O aumento no interesse pelos produtos da floresta, principalmente dos não madeireiros, deverá refletir no incremento das pesquisas sobre o conhecimento tradicional, aliadas às pesquisas envolvendo aspectos ecológicos de espécies com potencial de uso, constituindo-se tanto numa alternativa ao desmatamento, como dos povos que vivem nessas florestas e fazem uso dos seus recursos.

LITERATURA CONSULTADA


ANDERSON, A. Estratégias de uso da terra para Reservas Extrativistas da Amazônia. Pará e Desenvolvimento, v. 25, p.30-37. 1989.
BERNAL, R. G; GALEANO, G. Jarina. In: Clement, C. R; Clay, J. W; Sampaio, P. T. B. (eds.) Biodiversidade Amazônica: exemplos e estratégias de utilização. Manaus: Programa de Desenvolvimento Empresarial e Tecnológico, 1999. P. 341-349.
FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DO AMAZONAS. Jarina. Internet: www.fieam.org.br/invest/jarina.htm
PETERS, C. M. Sustainable Harvest of Non-Timber Plant Resources in Tropical Moist Florest: an Ecological Primer. In: Phillips, O. The potential for harvesting fruits in tropical rainforests; new data from Amazonian Peru. Biodiversity and Conservation. Washington: Corporate Press. 1993. v.2, p. 18-38, 1994.
POSEY, D. A. Traditional knowledge, conservation and the rain forest harvest. In: M. Plotkin & L. Famolare (eds.) Sustainable harvest and marketing of rain florest products. Washington: Island Press/Conservation International. 325 p. 1992.
RUIZ, R. C; COSTA, L.S. Seleção de espécies vegetais com potencial de uso, para estudos ecológicos e manejo, em florestas no oeste da Amazônia. Internet: http://www.nybg.org/bsci/acre/selection.html
 

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